
INTRODUÇÃO
A dois de outubro de dois mil e vinte e um, dávamos início a uma caminhada que, de Vila Real, e sempre por estrada, nos levava até Torre de Moncorvo (Parte I – Percurso dos Maiores), de Torre de Moncorvo até Chaves (Parte II – Percursos dos Jovens), de Chaves até São Pedro de Agostém, Vila Nova e Veiga e Chaves (Parte III – Percurso dos Séniores), e de Chaves até Vila Real (Parte IV – Percurso dos Infantes), fazendo, esta Parte IV, Parte destes três próximos posts.
O nosso querido Florens desafiou-nos a efetuar estas longas caminhadas.
Demos-lhe o nome a este périplo – Roteiro de Memórias e da Saudade.
Quando demos início à reportagem desta longa caminhada, dizíamos:
“A família alargada Sousa e Silva, oriunda do Douro, Baixo Corgo, das freguesias de Oliveira (concelho de Mesão-Frio) e de Loureiro (concelho do Peso da Régua), repartiram – e alguns ainda repartem – as suas vidas pela Régua, Vila Real, Chaves e Torre de Moncorvo. Os patriarcas e seus filhos mais velhos já partiram, deixando de conviver fisicamente com os que ainda andam por cá. Restam deles as suas Memórias e uma imensa Saudade. As vidas de cada um de nós acontece(eu) em determinados lugares. Possui (ou possuíram), habitam ou habitaram num determinado território. Território essencialmente do nosso Trás-os-Montes e Alto Douro.
É passando, visitando ou revisitando, esses lugares que as Memórias mais se avivam e a Saudade mais nos toca e aperta.
Visitávamo-nos amiudadas vezes: de Chaves para a Régua; de Chaves para Torre de Moncorvo, e vice-versa.
Alguns deles estadearam por algum tempo, por outras paragens – Vila Real, Lisboa e Porto, entre outras – fundamentalmente por razões de estudo. Os rebentos deste clã espalham-se por Chaves, Vila Real, Peso da Régua, Madrid, Porto, Ponte da Barca, Tarouca e Braga.
Quanto a estas Memórias, naquela local, também dizíamos:
“Obviamente, adverte-se o(a) leitor(a) que não vamos aqui tratar das nossas Memórias Familiares (…)”.
Seguíamos o conselho de Miguel Torga quando, no seu Diário III, escreve:
"Da minha pena (...) quero que saia apenas aquela intimidade que me parece ser suficiente para matar a justa curiosidade do leitor devoto, e me deixe ao abrigo de todas as bisbilhotices doentias". (...) "Não tenho nada a esconder do leitor, a quem nunca vendo gato por lebre, mas quero ter mão em mim, evitando-lhe o espetáculo de uma exibição confrangedora. Há recantos do ser e da vida que precisam de silêncio".
Cremos, durante este tempo todo, ter cumprido este desiderato. E assim o faremos até ao fim.
Vivendo, há mais de sessenta e quatro anos, a norte do distrito de Vila Real, paredes meias com a nossa amada Galiza, nunca esquecemos o Douro, o nosso Majestoso Douro, que nos viu nascer. Nascemos numa humilde casa, num dia de frio e neve, defronte ao Marão, de caras com a sua Fraga da Ermida. E quão verdadeiras são as palavras de João de Araújo Correia quando nos diz, a propósito do Marão: “Tempera o nosso caráter, sublima o nosso vinho, dá ao nosso clima altitudes de céu e profundidades de abismo”. Volvidos mais de setenta e cinco anos da nossa vida, quão profunda esta frase! E quanta saudade da nossa Mennonite Ali passada!
Vamos usar a mesma nomenclatura dos posts desta série, nesta Parte IV, dedicada aos infantes do clã Sousa e Silva, os nossos sobrinhos-netos, dos filhos dos manos Maria Alice e Lélé (Hélder) e das nossas netas, Alice e Elisa Amma.
Entremos, pois.
DEDICATÓRIAS
1.- Aos sobrinhos-netos do Peso da Régua (Eduardo e Mariana), acompanhados com um poema de António Joaquim Magalhães Cabral (António Cabral).
Entre outras virtudes do livro deste autor - Poemas Durienses -, salientamos, por muito nos ter agradado, a musicalidade que se solta da leitura de poemas como Lá Vem um Barco Rabelo, Ermida de Nossa Senhora da Piedade em Sanfins do Douro, Cantiga que eu Ouvi ao Ramo duma Árvore, Cantemos este Dia de Trabalho e Não é Fácil, Senhor, a Vida que nos Deste.
Aqui fica o último, que é também um belo texto acerca da condição humana:
NÃO É FÁCIL, SENHOR, A VIDA QUE NOS DESTE
Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste.
Se há momentos serenos como lagos
inundados de sol,
também há a selva escura,
infindável e escura, de muitas horas
que cansam e fazem doer a alma.
Há longas esperanças que, depois
de levarem o melhor dos nossos sonhos,
desabam de repente.
Há o fracasso, o desânimo
e a insegurança de tudo quanto nos vem às mãos.
Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste.
Luta-se muito, temos de lutar,
todos os dias, por qualquer coisa,
qualquer coisa que acaba por nos fugir,
como se a vida se reduzisse
a um puro jogo das escondidas,
como se nos criasses apenas
para te servirmos de passatempo.
Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste.
Por isso, muitos corações
se vão assemelhando a pequenos pântanos
onde se desenvolve o limo da melancolia
ou a serpente do desespero.
Por isso as árvores do sonho
mal conseguem dar frutos
e os poucos frutos
deixam nos lábios um sabor a fel…
Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste.
2.- À sobrinha-neta residente em Braga (Joana Alice), acompanhada do poeta paulista Guilherme de Almeida (1890-1969), conhecido como o Príncipe dos Poetas Brasileiros:
AMOR, FELICIDADE
Infeliz de quem passa no mundo,
procurando no amor felicidade:
a mais linda ilusão dura um segundo,
e dura a vida inteira uma saudade.
Taça repleta, o amor, no mais profundo
íntimo, esconde a jóia da verdade:
só depois de vazia mostra o fundo,
só depois de embriagar a mocidade...
Ah! quanto namorado descontente,
escutando a palavra confidente
que o coração murmura e a voz diz
percebe que, afinal, por seu pecado,
tanto lhe falta para ser amado,
quanto lhe basta para ser feliz!
(De Messidor, 1935)
Acompanha-nos ainda o pintor João Vieira (*)

(São Pedro, o outro, 1999, MACAM - Museu de Arte Contemporânea Armando Martins)
e o escritor Paulo Santos, vidaguenses.

PERCURSO
Troço 1 – Chaves (Praça do Brasil) – Vila Nova de Veiga
Na véspera, Florens veio pernoitar a nossa casa.
De manhã cedo, ainda o sol não se tinha levantado, nós já estávamos prontos para o caminho que nos esperava.
Ao sairmos da Praça do Brasil, e atravessarmos a ponte Barbosa de Carmona, o sol começava a despontar.

Da ponte Barbosa de Carmona até à Rotunda do Raio X,

foi um pequeno salto.
O dia começava a clarear, enquanto atravessávamos a avenida D. João I. No nosso percurso por esta avenida, a dado passo, fez-nos rir esta imagem.

Até que chegávamos à Rotunda da Agros,

nas proximidades do Marco da Nacional 2.

Após as fotografias da praxe, seguimos caminho, subindo para Outeiro Juzão, atravessando o cemitério daquela localidade.

Troço 2 - Vila Nova de Veiga – Vilela do Tâmega
Enquanto pela EN 2 passávamos pelo Lar da Terceira Idade, São Marcos, e atravessávamos ao lado da localidade de Vila Nova de Veiga – e quantas recordações, umas alegres; outras, nem tanto, esta terra nos traz! – ao longe víamos o Minheu.

O momento mais intenso das nossas recordações centrou-se nesta casa,

que foi do nosso mano Lélé (Hélder). Quantos momentos da nossa vida ali passámos! Positivamente, éramos um verdadeiro clã.
Também não podemos esquecer este local.

Referimo-nos à amizade do nosso mano com o proprietário deste restaurante, José Luís, bem como a atitude de verdadeira amizade e solidariedade deste senhor, por ocasião do passamento do nosso saudoso irmão.
Mas os momentos de mais emoção foram quando nosso olhar se virou para esta casa implantada atrás destas árvores.

Aqui vivemos alguns anos, com muita alegria, mas também com muito sofrimento. Foi um projeto de vida falhado. Esperamos que nossos filhos sejam, com ela, mais realizados e felizes.
Enquanto ruminávamos sobre o passado, Florens passa no marco do Km 5 da EN 2,

ao lado do perímetro da chácara Monte da Volta, que foi do saudoso Lau (o Prior de São Pedro de Agostém e Vilela do Tâmega) e dos seus pupilos (António e Angélica). Está em outras mãos, com os rebentos de um dos proprietários. Quanto desejamos que saibam honrar todo o amor e carinho que o patriarca da família lhes dedicou!
Percorridos cerca de seis quilómetros, era hora de fazer uma pausa para descansar um pouco e fazer o reforço do pequena almoço. E aqui parámos.

Recompostos, prosseguimos em direção a Bóbeda. Na nossa passagem, e à beira da estrada, a capela de Bóbeda, uma das obras do Prior de São Pedro de Agostém, nosso querido e saudoso irmão – Padre Ladislau José de Sousa e Silva, que aqui paroquiou mais de 50 anos.

50 anos a ver nascer, batizar, casar e enterrar tanta gente! Quantas histórias lhe ouvimos! Quantas vidas lhe passaram pelas suas mãos! E como com tanta tranquilidade nos deixou!
Foi um percurso difícil este, até aqui. Mexeu demasiado connosco. Foi como se estivéssemos a ver um filme dramático. E que cenas tão vivas passaram pela nossa mente!
Foram tantas as cenas que passaram pela nossa mente que mal nos apercebemos que estávamos a chegar ao antigo Km 10 da EN 2.

Troço 3 – Vilela do Tâmega – Vidago
Uma centena de metros à frente, aparece-nos a entrada principal de Vilela do Tâmega, sinalizado por este cruzeiro.

Mais uma centena de metros daquele cruzeiro, encontrávamos o Marco do Km 10, em frente ao Restaurante Cunha.

As obras de melhoramento da EN 2, dos anos 80 do século passado, encurtaram as distâncias da original estrada.
Seguimos o nosso roteiro pela Nacional 2, enquanto, do nosso lado direito, apareciam as encostas ensolaradas e vinhateiras de Arcossó e Anelhe.

E, descendo, chegávamos a Vilarinho das Paranheiras.

Não se deixa desapercebida a antiga estação da extinta Linha de Caminho de Ferro do Corgo.

Saídos de Vilarinho das Paranheiras, por aquela subida pronunciada, chegávamos ao Km 16, já nas proximidades de Vidago.

E, finalmente, estávamos em Vidago.

De grande vila termal que era, hoje, neste aspecto decadente, apenas exibe os nossos escritores famosos nas portadas de um dos hotéis da Belle Époque (**) vidaguense.

Sentámo-nos num dos cafés para tomar algo. Chegámos cedo e nossa preocupação foi encontrar restaurante e sítio para nos alojar, pois decidimos aqui pernoitar.
Neste dia, 5 de outubro, dia da implantação da República, a maioria dos estabelecimentos comerciais estavam fechados. Levou-nos algum trabalho até que encontrássemos um lugar para pernoitar, à falta do que tínhamos em mente e que se encontrava fechado.
Até que nos surgiu um, bem no centrinho – Um Alojamento Local, Ane Van.

Deambulando pela vila de Vidago e pelo Parque do Palace Hotel
– O pulmão verde da vila
Depois de termos almoçado, num dos poucos restaurantes abertos, na rua principal, dirigimo-nos para o nosso alojamento, onde, depois de tomarmos banho, descansámos umas boas duas horas.
A meio da tarde, fomos dar uma volta pela vila. E, como não podia deixar de ser, dirigimo-nos ao Vidago Palace Hotel. Pelo caminho, passámos pela Igreja Paroquial de Vidago.

Na nota informativa no placar, afixado nas proximidades da igreja, pode ler-se:
“Igreja de Nossa Senhora da Conceição - Neorromânico. Século XX - Herança da época dourada do termalismo
Igreja construída na primeira metade do século XX, seguindo o modelo de muitas igrejas românicas do norte de Portugal, em voga na época. O lançamento da construção deste templo deu-se na década de 30, sendo financiado sobretudo a partir dos donativos das pessoas. É um edifício que recolhe o reinterpreta os elementos característicos do românico, encontrando-se inserido num largo adro envolto por árvores de grande porte, apresenta planta de cruz latina com ábside curva, uma aparência robusta e sóbria com os contrafortes visíveis do exterior, fachada principal com portal em arcos de volta perfeita, decorados com motivos geométricos, suportados por capitéis ornados e colunas lisas, destacando-se ainda a existência de óculo adornado a encimar o portal principal e pequena torre sineira”.
Apresenta-se uma imagem na qual se procura identificar, no exterior, na fachada principal, os elementos românicos.

E encaminhámo-nos para o Parque do Vidago Palace Hotel, atravessando parte da avenida Conde Caria e a alameda Dr. António Viana.
Tudo muda. Já não é nada como na nossa juventude. Agora entrar no Vidago Palace Hotel e seu respetivo Parque, e nele passear, tem as suas condicionantes.

Tudo isto transformou-se numa infraestrutura turística e hoteleira de luxo, só acessível a bolsas endinheiradas. Os jovens de Chaves já não se despejam aqui, e na defunta estalagem, como nos anos 70 a 90. Com o beneplácito e autorização dos respetivos porteiros, lá entrámos para dar uma voltinha, matando saudades e tirando, aqui é ali, com o telemóvel uma ou outra foto aos mesmos clichês de sempre. A belíssima Fonte 1.

O velho coreto.

A Loja de Vidago. Originalmente chamava-se Chalet Suisso, e funcionava como um quiosque para venda de tabaco e jornais.

O antigo Posto de Correios.

E este edifício de pedra - o Club House do Vidago Palace Hotel.

Antigamente, este espaço servia como as Cocheiras do hotel. Era aqui que se guardavam as carruagens e os cavalos que transportavam a elite e a aristocracia que visitava as termas no início do século XX. Hoje em dia, o edifício foi totalmente recuperado e reconvertido num espaço de lazer e convívio, mantendo a sua traça arquitectónica original. Serve para:
- Apoio ao Golfe: Funciona como a sede do prestigiado campo de golfe de 18 buracos;
- Restauração: Abriga um restaurante e bar com uma esplanada agradável, visível na na foto por trás do chafariz.
- Ambiente: A fonte octogonal em primeiro plano e o espelho de água são elementos clássicos que realçam a elegância do conjunto.
É um dos locais mais tranquilos do parque para relaxar e apreciar a vista sobre o campo de golfe.
Daqui, demos meia-volta e dirigimo-nos para o lago.

O seu aspecto intrigou-nos,

mas depressa nos certificámos que se trata da presença da lentilha-d'água (Lemna) e/ou de algas, fenómeno comum em lagos com águas paradas e muitos nutrientes.
Saímos do Parque e, pela rua João de Oliveira, fomos ao encontro do Balneário Pedagógico de Vidago.

Tínhamos dúvidas se estava em pleno funcionamento. Consultámos o Dr. Google e obtivemos a seguinte resposta:
“Está, na verdade, em pleno funcionamento. A época termal de 2026 arrancou no dia 5 de maio e prolonga-se até 31 de outubro.
A ideia de que não funciona pode surgir de dois motivos principais:
- Sazonalidade: Ao contrário de spas de hotéis, este balneário público funciona apenas durante a época termal (geralmente de maio a outubro), fechando nos meses de inverno.
- Horário específico: O espaço encerra aos domingos e segundas-feiras, funcionando de terça a sábado em horários repartidos (manhã e tarde).
Este balneário, instalado na antiga estação ferroviária de Vidago, é único, porque combina o termalismo terapêutico com uma vertente de investigação e formação académica, servindo de laboratório prático para estudantes da área da saúde”.
A ser verdade, fiquei menos preocupado e a entender que, porventura, andava por aqui alguma má-língua quanto ao não funcionamento de uma infraestrutura, conseguida, creio, à custa de verbas vindas da Europa.
Informava ainda: “Se pretende realizar tratamentos específicos (digestivos, reumáticos ou respiratórios), lembre-se que estes requerem uma consulta com o médico hidrologista no local”.
E, ainda, a mesma local desta informação, perguntava-nos: “Gostaria de saber os contactos para fazer uma marcação ou os preços dos tratamentos de bem-estar?
Chegados aqui, não tivemos pachorra para mais conversa.
Continuando o nosso passeio urbano, e virando à esquerda, é desolador o estado em que estão os antigos hotéis, restaurantes e pensões desta zona, como este!

Acabávamos aqui o nosso passeio por Vidago, regressando, já noite, ao nosso alojamento pelo antigo canal da linha do Caminho de Ferro.

No café ao lado do alojamento, onde fomos tomar alguma coisa, antes de irmos para a cama, estava a ver bola na televisão o nosso amigo Tó Andorinha (António Almeida). Estávamos para, no intervalo, dar dois dedos de conversa com ele. Infelizmente não voltou…
(Ver Anime)
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(*) Deixa-se aqui um “cheirinho” sobre este autor e sua obra.
Na vila de Vidago, na antiga casa do benemérito vidaguense, Bonifácio da Silva Alves Teixeira, funcionou a escola primária para meninas e foi também a residência de um casal de professores primários, pais de João Vieira. Hoje é o Museu João Vieira, onde se expõe obra deste autor aqui nascido.

(**) A título de curiosidade, deixamos aqui um artigo - “Quem não sabe é como quem não vê” – Mulheres na música em Vidago durante a década de 1960: Os casos de Almerinda Ribeiro e Lucinda Prazeres, de Maria Teresa Lacerda, relembrando a Belle Époque vidaguense.
