Andarilho de andanhos

Ao encontro da Extremadura, terra de conquistadores - Cáparra, cidade romana

AO ENCONTRO DA EXTREMADURA,

TERRA DE CONQUISTADORES 

 

CÁPARRA

CIDADE ROMANA

 

DE MANHÃ

(05 abril.2924)  

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Aqui começa o caminho.

O visitante atravessa o limiar do presente

e entra na cidade antiga,

onde cada pedra guarda uma voz

e cada ruína é um gesto de eternidade.

À partida de Plasencia, no regresso à nossa querida Galaecia, a páginas tantas, sinceramente, não descortinávamos por onde Pablo nos levava.

Apenas, pelo recorte da paisagem, 

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sabíamos que atravessávamos ainda chão da Extremadura.

Até que numa ligeira curva da estrada, 

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Pablo para o carro. Pelos placares de informação, detetámos que estávamos defronte das ruínas da cidade romana de Cáparra.

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Há hora que chegámos o portão de acesso ainda estava fechado. Aproveitámos para dar uma vista de olhos ao entorno e tirarmos fotos a atestar a nossa presença neste lugar.

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Logo que o portão abriu, fomos diretos ao edifício que funciona como recepção e de exposição deste assentamento.

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Paga a entrada, demos uma volta pela exposição, destacando nela esta maquele que recria o que naquela tempo seria a configuração do Arco Quadrigonte ( o ponto zero da cidade romana) e seus edifícios vizinhos.

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Saídos do centro de receção e, quase sem transição, entramos noutro tempo. O solo muda, o silêncio instala-se.   

Amigo Pablo toma a palavra e, de nosso guia improvisado, começa:

“Bem-vindos a Cáparra.

Atravessamos juntos o limiar do tempo — e cada passo será uma invocação.

Vocês são os visitantes, eu, Pablo, o vosso humilde guia.

Esta cidade romana, entre ruínas e silêncio, ergue-se como um tecido contínuo de memória.

Vamos seguir a sinalética implantado no terreno.

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Eis o primeiro sinal: 

1 - Tumba

Primeiro guardião da cidade.

Memória que vigia o caminho.

A morte abre a porta da história. 

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O primeiro vestígio é uma tumba solitária. Não é apenas pedra — é promessa de eternidade.

Aqui repousa alguém que viveu sob o arco do império, e cuja morte foi inscrita no chão da cidade.

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É o primeiro sinal de que Cáparra não é apenas ruína: é destino.

Isolada, discreta, mas firme. Não é um monumento de exibição, é um vestígio de permanência. Antes de qualquer rua, antes de qualquer edifício, encontramos a morte — como se a cidade nos lembrasse que a sua memória começa aqui. Não é um começo casual; é um aviso. Entramos numa cidade que já foi vivida.

Avançamos alguns passos e o espaço abre-se, é:

2 — O anfiteatro

A arena da coragem.

Lugar onde o povo celebrava o destino.

O coração pulsante do espetáculo romano.

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Surge lateralmente, não no centro, deslocado, como deve ser. A sua forma circular impõe-se ao terreno. Aqui reunia-se a multidão, aqui se representava a vida sob forma de espetáculo. 

Mas reparem: está fora do núcleo. A cidade quotidiana não se confunde com a cidade do espetáculo. Este afastamento é já uma lição de urbanismo romano.

Aqui era onde o povo se reunia para ver homens enfrentarem o tempo.

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Aqui ecoavam vozes, ferros, aclamações.

A forma elíptica, as bancadas, o palco da vida e da morte.

Era o lugar onde o império mostrava o seu poder — e a sua teatralidade.

Continuamos, e aproximamo-nos de um ponto de passagem:

3 — A Porta Sudeste

O limiar da cidade.

Entrada ritual.

A fronteira entre o campo e a ordem urbana.

 

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Não espereis monumentalidade intacta. O que resta é suficiente para perceber a função: controlar, marcar, filtrar. 

Este é um limiar antigo, diferente daquele por onde entrámos. Aqui começava verdadeiramente a cidade romana, organizada, estruturada, definida.

A porta sudeste era por onde a cidade se abria ao mundo. Era passagem, fronteira, acolhimento.

Por aqui entravam mercadores, viajantes, soldados.

A pedra ainda guarda o gesto de quem cruzava o limiar entre o fora e o dentro.

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E é por aqui que se desenha um eixo claro:

4 — O Cardo Maximus

Eixo norte–sul.

A espinha dorsal da cidade.

A rua que organiza o mundo.

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Uma linha que sobe (e desce), que conduz, que estrutura o espaço de sul para norte. Hoje vemos fragmentos, mas a direção mantém-se. 

Caminhar sobre ele é atravessar a cidade em profundidade. Não é apenas uma rua — é um gesto urbano.

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Este eixo norte–sul é a espinha dorsal da cidade. Cada laje é uma sílaba da língua urbana romana.

Ao longo do Cardo, erguiam-se casas, lojas, templos. É por aqui que a cidade respirava, ordenava, vivia.

À nossa direita, surgem vestígios mais íntimos:

5 — A domus

A casa romana.

O quotidiano tornado memória.

O íntimo dentro do monumental.

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Uma casa. Ou melhor, o que resta dela. Compartimentos, paredes baixas, espaços que já não têm teto. Aqui vivia alguém, aqui dormia-se, comia-se, pensava-se. A escala muda. Saímos do espaço público e entramos na dimensão privada.

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Esta Domus devia ser de um cidadão abastado.

Pátios, mosaicos, vestígios de frescos.

A vida privada encontra-se com a monumentalidade — e o quotidiano torna-se história.

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E logo adiante, quase naturalmente, encontramos:

6 — As termas

O ritual do corpo.

Frio, morno, quente.

Purificação e convivência.

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A água, o calor, o encontro. As termas não eram luxo — eram rotina. 

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Este é um dos centros da vida urbana. Ainda hoje se percebem os espaços, as divisões, a lógica do percurso interno. Aqui a cidade tornava-se corpo.

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Nas Termas era onde o corpo era purificado e o convívio era um ritual.

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Vestimos o silêncio do apodyterium, sentimos o frio do frigidarium, o calor do caldarium. 

O hypocaustum murmura ainda o sopro dos fornos.

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E, na palestra, o exercício era também celebração.

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E então, sem aviso, ergue-se o momento mais claro de toda a visita:

7 — O Arco, o Tetrapylon

O ponto zero.

O centro geométrico e simbólico.

A cidade nasce aqui.

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É o único elemento que se afirma verticalmente com clareza. 

Quatro aberturas, quatro direções. 

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Aqui cruzam-se os eixos - o Cardo e o Decumanus: norte/sul; este/oeste.

Aqui a cidade revela a sua ordem. Tudo o que vimos até agora ganha sentido neste ponto. É o coração, mas também é a chave de leitura.

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O Arco é o centro cerimonial: o Arco de Cáparra é o ponto zero da cidade.

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Marco Fidiano ergueu-o em memória dos pais — e a cidade ergueu-se em torno dele.

É o vértice da geometria urbana e da emoção romana”.

E aqui Pablo fez uma pausa para, mais em pormenor, observarmos este Arco 

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e darmos à fala cum uma peregrina, a pé, a descansar, e dois ciclistas, também peregrinos, que acabavam de atravessar o Arco.

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E, aproveitando o momento, a fotografia da praxe dos nossos amigos:

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E Pablo continuou:

“À volta deste Arco, abre-se um espaço mais amplo:

8 — O foro

A praça pública.

Política, comércio, religião.

O palco do poder.

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Centro político, administrativo, simbólico. Hoje é difícil de se ver na totalidade, mas percebe-se a intenção: este era o lugar da autoridade. 

Se o arco organiza, o foro legitima.

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O foro, praça pública, era o coração político e religioso da cidade, com pórticos, basílica, templo, altar.

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Aqui decidia-se, negociava-se, venerava-se.

As estátuas falam ainda — e os ecos do poder ressoam nas pedras.

Vamos prosseguir e entrar numa malha mais densa:

9 — As insulae

As casas populares.

A vida densa e humana.

O império vivido por dentro.

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Nas margens do foro, as Insulae, com habitações populares, coletivas, é mais compacta, mais urbana.  

Múltiplos andares, vida densa, vizinhança viva. Aqui moravam artesãos, comerciantes, famílias.

É o lado humano da cidade, onde o império se tornava cotidiano.

Aqui a cidade tornava-se contínua, quase labiríntica. 

É o tecido quotidiano, o espaço onde a maioria vivia. 

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Não há monumentalidade — há repetição, proximidade, vida.

E, agora, vamos ao encontro do eixo horizontal:

10 — O Decumanus Maximus e as tabernae

Eixo este–oeste.

Lojas, oficinas, movimento.

A cidade em circulação.

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Este é o outro grande gesto da cidade - a linha este-oeste. 

Ao longo dela, as lojas — as tabernae — onde se comprava, vendia e se negociava.  O espaço do movimento, da economia, da troca. 

As tabernae ladeiam a via: lojas, oficinas, espaços de troca.

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O comércio pulsava aqui, entre o sagrado e o profano.

Se o cardo conduz, o decumanus distribui.

Cada pedra é um contrato, cada sombra uma história.

E, já repararam que, ao caminhar, sentimos algo sob os pés?:

11 — A calçada e a sua evolução

A estrada romana.

Linha que liga Cáparra ao mundo.

Caminho de chegadas e partidas.

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Não é apenas pedra. É tempo. Camadas de uso, de desgaste, de adaptação. 

A estrada muda, transforma-se, mas mantém a função. 

Aqui percebe-se que a cidade não foi estática — foi vivida, alterada, continuada.

Esta era a calçada que ligava Cáparra ao mundo.

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Aqui vemos as fases construtivas, os ajustes, os traçados.

Era estrada, mas também símbolo: o império como rede, como promessa de chegada.

Cada curva é uma escolha política.

E, finalmente, minhas queridas amigas e amigo, aproximamo-nos do limite:

12 — A Porta Sudoeste

O último limiar.

A despedida da cidade.

O regresso ao presente.

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Outro ponto de saída, outro limiar. 

Menos evidente, talvez, mas essencial. 

A cidade não é um círculo fechado — é um sistema de entradas e saídas. E aqui, ao sair, percebemos o que foi Cápara: não um fim, mas um lugar de passagem estruturada.

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A Puerta Sudoeste é o último limiar, onde o visitante se torna memória.

Aqui termina a nossa visita 

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— e começa a nossa evocação.

Cáparra não se esquece: permanece”.

 

Epílogo 

Este é o percurso.

Este é o rito.

Cáparra permanece.

E quem a percorre torna-se parte dela".

E Pablo termina a sua visita guiada com estas palavras:

“Vocês hoje foram peregrinos da pedra e do tempo. Cada sítio que vistes é agora parte do vosso próprio itinerário interior.

Quando olhamos para trás, vemos que percorremos mais do que um espaço: percorremos uma lógica - da morte, à entrada; do espetáculo, no espaço que foi anfiteatro, da casa ao poder, da rua ao território.

Cápara não é uma cidade que se mostra inteira. É uma cidade que se recompõe — passo a passo.

Cáparra é mais que ruína: é mapa de emoções, arquitetura de lembrança”. Dixit.

 

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